Pimba na gorduchinha! Ops! No dadinho

Eu nunca fui bom com a bola nos pés, o que era (e ainda é) motivo de vergonha para quem nasceu no “país do futebol”. Por conta disso, bastava a minha turma da rua organizar uma pelada para eu ficar trancado dentro de casa. Mas, por outro lado, eu nunca odiei futebol. E a compensação por não ter aprendido a chutar uma “gorduchinha” se deu com um jogo genuinamente brasileiro: o futebol de botão. Gastei horas da minha infância e da minha adolescência com os joelhos no chão e a palheta na mão, fazendo (e levando também) gols. A habilidade que eu não tinha para jogar futebol de verdade eu desenvolvi nas mesas. Não que eu fosse um “cracaço” no jogo de botão, mas não fazia feio e cheguei a vencer quatro dos vários campeonatos que eu e meus amigos organizávamos periodicamente.

Não me lembro quando exatamente comecei a jogar, mas certamente tudo teve início em casa mesmo, tendo meu irmão como rival. Houve um Natal no qual nossos avós nos presentearam com times completos de acrílico, um para cada. Eu fiquei com o time do Flamengo (que é meu time de coração) e meu irmão ficou com o da seleção brasileira. Nem tínhamos “estádio” naquela época, então jogávamos na mesa da sala mesmo. Foi assim que eu dei meus primeiros toques.

Quando cheguei à idade de fazer amizades na vizinhança, todos aqueles que viriam a ser meus adversários nas mesas já sabiam jogar também. No subúrbio, poucos garotos tinham condições de comprar de uma mãozada só um time completo de galalite (material usado na fabricação de fichas de jogos de poker), principalmente com botões que tivessem camadas ou listras de madrepérola e emblemas dourados gravados (estes, sem dúvida, eram os mais caros). Então, comprávamos nossos botões “a granel”. Naquela época, qualquer armarinho de bairro vendia botões. Bastava fazer o pedido no balcão que lá vinha o(a) vendedor(a) com um vidro de maionese cheio de botões sortidos, de todos os tamanhos e cores. Dificilmente dava para comprar dez botões iguaizinhos, então fazíamos nossos times com “jogadores” misturados mesmo. Eu tinha um botão de acrílico transparente verde que eu chamava de “Marinho” que era o mestre dos chutes por cobertura. “Chutar” com ele era bola (ou melhor, dadinho) no ângulo ou por cima do goleiro na certa. Com ele eu só fazia gol de placa!

Mas, por onde anda o Marinho, o grande craque do meu time?

Já nos últimos suspiros da minha adolescência, ninguem mais da minha turma jogava futebol de botão. Quando me mudei para o apartamento onde vivo hoje, em 2003, vendi minha mesa para um cara aqui do bairro que comprava e revendia objetos de segunda mão e me desfiz do meu time de botões, que costumava guardar numa lata de batata-frita Pringles sabor cebola-e-salsa.

Mas bem antes disso a brincadeira já havia mudado de cara. O “improviso” ou a “simplicidade” dos meus tempos (guardar o time em latas de Pringles ou de Nescau, comprar botões a granel em armarinhos, jogar ajoelhado no chão e, ainda, passar talco na mesa para fazer o botão deslizar mais) viraram coisa do passado mesmo. Agora, futebol de botão virou futebol de mesa, o que era brincadeira e passatempo virou modalidade esportiva reconhecida, foram criadas federações e regulamentos, inventaram uns “botões argolados” (com um buraco no meio!) e agora os times são guardados em carteiras ou “ônibus” (como são chamados os estojos para armazenamento e transporte). Pode até ser divertido ainda, mas não se parece tanto com o jogo que ficou marcado na minha memória.

Saudades de uma animada partida, de joelhos no chão, com golaços por cobertura do Marinho!

Fonte: Escalas Geográficas