Meus Botões…

Não espere nada muito original. Acho que todo mundo que já foi criança e se mete a escrever de vez em quando já escreveu sobre seus botões. Sobre grandes clássicos solitários, ou campeonatos com os amigos, primos e irmãos, golaços, partidas épicas, aquele botão especial.

Portanto, não espere nada muito original, pois é exatamente o que vou escrever. Sobre grandes clássicos solitários, campeonatos com os amigos, primos e irmãos, golaços, partidas épicas, aquele botão especial.

Fui jantar na casa dos meus pais ontem, era aniversário do patriarca, e minha mãe tinha tirado de uma das gavetas debaixo da cama em que eu dormi um dia, melhor, em que dormi muitas noites, tantas que nem sei quantas, uma caixa cheia de caixinhas com meus botões.

Estavam um pouco empoeiradas, as caixas. Os botões, não. O tato. O tato e o cheiro. O estojo verde claro rugoso, onde se lê em alto-relevo “acessórios”. De costura? Provável. Aquele estojo já guardou agulhas, alfinetes, dedais e carretéis de linhas de todas as cores, e botões, também. Botões de pregar.

Mas um dia passou a guardar os meus botões, o meu time, todo ele contratado no Rio, nas melhores lojas de armarinhos de Copacabana, botões de galalite, que nunca soube bem o que era, galalite, talvez uma espécie de criptonita, um material milagroso vindo de outro planeta. Ainda não sei o que é galalite.

O tato no estojo, o cheiro do talco. É, eu embebia meus botões em talco, para que escorregassem mais. De cara vi o Calegari. Aquele roxinho, com a base verde, número seis. E revi Xaxá, o sete, vinho com a base azul. Pontinha lépido, sempre pela direita, driblador, preciso.

E meus dois zagueiros enormes, Pescuma e Isidoro, tricolores porque no Rio não havia zagueiros rubroverdes, mas as cores do Flu me serviam bem. Atrás deles, Zecão, uma muralha, um bloco sólido de madeira que deve ter sido outra coisa na vida antes de virar um goleiro intransponível.

E, entre eles, Dicá e Camargo, dezessete e catorze, meus grandes reservas. Vocês podem não acreditar, não importa, até compreendo o erguer de suas sobrancelhas descrentres, mas juro, eles ganharam muitos jogos difíceis na sala de casa e na entrada do prédio de Copacabana, juro que ganharam, não tinha salão de festas, era na entrada do prédio que a gente jogava, ou no corredor de serviço, atrapalhando as empregadas pretas de bundas grandes que chegavam da padaria e do mercado rebolando cheias de pacotes.

Dicá e Camargo, o outro Enéas, não eram de galalite. Eram tampas de relógio, um pintado de bege por dentro, claro, Dicá, o outro chamuscado no vermelho, Camargo. Entravam quando a coisa estava ruim, quando uma virada se fazia necessária. Dicá batia faltas como ninguém, colocava o dadinho, no Rio eu jogava com dadinho, onde queria, um efeito mágico, desconcertante. Juro. Camargo era insinuante, recuperava bolas, dadinhos, impossíveis, o artilheiro das causas perdidas. Enéas, o oito, tinha ciúmes dele, mas eu era um técnico enérgico, se estava dormindo em campo, saía.

Lentos eram Dicá e Camargo, perto dos atacantes de galalite que deslizavam sobe o Estrelinha (nunca tive um Estrelão). Mesmo assim, se consagraram no morro do Caracol até que fomos todos vendidos para São Paulo, mala e cuia, e aí já havia um salão de festas e cavaletes para jogar de pé, eu sempre preferi de joelhos, mas eram outros tempos, profissionalismo, campeonatos, tabelas que eu mesmo fazia, regulamentos complicadíssimos, medalhas, o Estrelinha foi junto e virou Canindé, apareceu um campo maior, de gramado mais áspero e amplo, mudaram-se as táticas, as regras, o dadinho resistiu por algum tempo, vieram as bolinhas de feltro, foi difícil a adaptação, e assim a carreira de Dicá, Camargo e os galalíticos entrou em declínio.

Eram tempos já de mesada, e de descer a pé ou de ônibus elétrico usando passe escolar da CMTC até o começo, ou fim, da rua Augusta, ao lado da Sebring, a loja de esportes que não me lembro o nome, Esporte Paulista, talvez? Na vitrine, os times da Brianezi, cálices sagrados, caixas largas e baixas, com tampa transparente, cinco em cima, cinco em baixo, números grandes, pintura impecável, entre as duas fileiras de jogadores duas bolinhas à esquerda, o goleiro no meio, a palheta à direita. Jamais vou esquecer dessas caixas.

Foram semanas de cruzeiros guardados para, um dia, glória das glórias, levar para casa o time da Portuguesa, debaixo do braço como um tesouro, eu tinha medo de pivetes, era gíria do Rio, se um pivete tentasse algo com meu Brianezi, eu seria capaz de matá-lo a pauladas, meu time cujo escudo tinhas as cores trocadas, cruz de Aviz vermelha e contorno verde, tenho muita coisa da Portuguesa assim, invertida, não me peçam explicações, começava ali uma nova era, botões técnicos, de passadas largas e macias, imponentes e ameaçadores.

Eu tive alguns bons times da Brianezi. Depois desse, cujo médio-volante sumiu, consegui comprar a seleção da Itália, a seleção da Espanha, a seleção da Alemanha e o Atlético Mineiro. Era um patrimônio e tanto. Mas eu tinha times muito ruins, também. Um do Juventus da Mooca, desses de feira, tosco e irregular, mas bravo quando jogava no Estrelinha, numa retranca de dar arrepios, à Milton Buzzeto, mais o XV de Jaú, que ficava numa lata de balas Sönksen, o Galícia de acrílico com distintivos recortados da “Placar” abrigado em caixas de slides da Curt, e os goleiros.

Ah, os goleiros… Eu tinha verdadeira obsessão por eles e seus uniformes coloridos de grife: Athleta e adidas. Fazia-os com caixas de fósforos, cheias de chumbo para dar peso, chumbo que vinha de tampas de garrafas de uísque ou de invólucros de rolhas de vinho, cientificamente dobrados e colados com araldite, consistentes e confiáveis.

Fazia goleiros às pencas, de todos os times do campeonato, aquele de onde a Arena vai mal, um time no Nacional, CSA, Figueirense, Volta Redonda, Goiás, Caxias, Goiânia, Náutico, Inter e suas letras entrelaçadas dificílimas de desenhar, Guarani, Ceará, Ponte, ABC, Londrina, Avaí, Bahia, Flamengo do Piauí, Santa Cruz, Coritiba, Cruzeiro, Desportiva Ferroviária, e o único gringo, o Independiente da Argentina.

Em todos eles, eu mesmo desenhava as camisas e pintava com canetinhas Sylvapen, borrava um pouco, mas eu nem era tão mau assim como estilista de goleiros e fazedor de escudinhos, e colocava a data atrás. A data de seu nascimento.

Esses goleiros estão com pouco mais de 30 anos, alguns poderiam estar jogando até hoje, poucos tinham nome, só os da Portuguesa, quando Zecão parou entrou em cena o careca Miguel, 18 era a camisa dele torcida brasileira, o nome estampado na frente com aquelas fitas de máquinas etiquetadoras, um luxo só.

O Estrelinha era o alçapão temido por todos, em volta do gramado eu espetava as bandeiras das torcidas organizadas da Lusa, Leões, Falcões e a CUP, a que eu mais gostava, Corações Unidos da Portuguesa. Anotava todos os jogos em cadernos, perdi pouquíssimas partidas no meu Canindé, perdi todos os cadernos, mas assevero que ninguém ganhava de mim lá, apesar da técnica apurada dos Brianezi, mais apropriada para campos mais amplos, onde o contra-ataque era mortal.

Vi minha vida em meus botões, levei todos para casa, fiquei olhando para eles ontem à noite e de madrugada, cheirando o talco que os poupa das agruras do mundo, passando os dedos pelas camisas dos goleiros e pelos estojos e caixinhas e latinhas que sempre foram seu teto, para sempre serão, seja qual for o teto que me abrigar.

Autor: Flavio Gomes. É jornalista, dublê de piloto e escritor. Atua em jornais, revistas, rádio, TV e internet. “Um multimídia de araque”, diz ele. No Twitter, @flaviogomes69.

Fonte:  http://colunistas.ig.com.br/flaviogomes/2010/01/06/meus-botoes/

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  1. By flavio perez

  2. By Antonio Carlos dos Santos