Santos Dumont X Geraldo Décourt


Façam uma pesquisa com a seguinte pergunta: Quem foi o maior inventor brasileiro? A esmagadora maioria vai, provavelmente, cravar na bucha o bom e velho Santos Dumont. Eu não, até porque continuo a não acreditar que um avião seja de fato capaz de voar. O maior inventor brasileiro de todos os tempos é Geraldo Décourt – o pai do futebol de botão.

Dizem que Décourt desenvolveu o jogo, no final da década de 1920, arrancando botões de cuecas [cueca naquele tempo tinha botão, vejam só] e de uniformes escolares. Chamou o troço de Celotex, um material usado para fazer as primeiras mesas, e mandou ver.

Sempre achei o futebol de botão o mais democrático dos esportes mundiais, seguido pelo cuspe a distância e pela porrinha. Já se fez botão de tudo quanto foi jeito no Brasil – osso, tampa de relógio, paletó, plástico, galalite, coco e outros babados. Lembro bem do caso de um vizinho que arrancou os botões do paletó do avô durante o velório, ao perceber que o velho ia ser enterrado com um material de excelente qualidade para o futebol de mesa. A frase do capeta na hora de surrupiar os botões do velho foi inesquecível: Aquele segundo botão é o Rivellino; não vou deixar enterrarem o Riva.

Qualquer lugar era válido para a disputa. Jogava botão, quando era moleque, no chão da casa, na mesa da cozinha e, evidentemente, no Estrelão, a mesa sem cavalete que a Estrela produziu. Goleiros? Chumbinho, caixa de fósforos grande, o famosos Olhão, pedaço de madeira, plástico. Até dentadura de avó eu vi agarrar em partidas improvisadas.

Outro jogo absolutamente democrático era o pregobol, mais conhecido como preguinho. Esfolava-se o dedo de forma retumbante ao meter os petelecos na moeda que, entre pregos, deveria entrar no gol – e aí era só cantar o que bonito é a torcida delirando.

Essas rápidas recordações, na verdade, me ocorreram por conta de um detalhe. Eu, que trabalho dando aula pra rapaziada mais nova, constato o seguinte: Os garotos, com raríssimas exceções, não jogam mais preguinho e botão. Na minha adolescência jogar botão era tão natural quanto, para ficar no exemplo básico, descabelar o palhaço. Todo mundo tinha seu time.

Desconfio que a culpa pela agonia do botão e do preguinho entre os garotos é desses jogos eletrônicos malucos que reproduzem com certa fidelidade partidas de futebol. A garotada fica agora fazendo tabelinha virtual em computadores e televisões e, seduzida pela parafernália desses trecos, abandona as coisas mais simples, que exigem mais talento, tem maior poder de sociabilização, são muito mais divertidas e inventivas.

Nesse caso eu fecho com o jornalista José Trajano, que em certa ocasião admitiu que sua grande preocupação ecológica e de luta pela preservação da vida era com a extinção do futebol de botão.

Eu também. Defendo, como humanista que sou, os animais em extinção, como o urso panda, o sagui-da-serra, a ararinha azul, o mono-carvoeiro, o macaco-prego, o mico leão, o cachorro do mato de orelha curta, a onça parda, o gato do mato, o tamanduá bandeira e a baleia jubarte. Não posso esquecer de citar o heterossexual masculino, os reis Momos balofos e as cantoras de mpb que gostam de homem.

Lanço aqui, por tudo isso, outra campanha preservacionista: Abaixo os jogos virtuais e viva o futebol de botão e o preguinho. S.O.S urgente, Brasil!

Postado por Luiz Antonio Simas

Fonte: http://hisbrasileiras.blogspot.com/2010/02/preservem-o-botao-e-o-preguinho.html